Hassan Fathy – Arquitetura para os pobres

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“Hassan Fathy foi o primeiro arquiteto egípcio do século XX a não importar ideologias arquitetônicas do Ocidente. Pelo contrário, ele exportou novas ideologias, e apresentou para o mundo toda uma nova arquitetura após redescobrir as maravilhas de nossa ancestralidade e religar os pontos para trazer essa nova arquitetura”. Assim o site Egypt Architecture (http://www.egyptarch.com) abre a página que fala sobre Fathy. Essa tradução livre já ajuda a denotar a importância desse arquiteto no contexto da arquitetura de seu país, quiçá de toda sua região. A força da identidade cultural dos países do Norte da África encontra em Hassan Fathy um importante respaldo.

Técnicas e estilos arquitetônicos tradicionais não surgem do nada. Quando um povo desenvolve um estilo, um método, é fundamentalmente por razões de adaptação às suas condições. Sabe-se que o clima é absurdamente quente no Norte da África (e na grande maioria dos países árabes), e é natural que os habitantes dos países árabes em tempos remotos acabassem por desenvolver técnicas que favorecessem o conforto térmico usando os materiais que estivessem à disposição. Supondo-se que o clima local seja o mesmo e que os materiais continuem acessíveis, por que não usar aquele conhecimento desenvolvido pelos ancestrais para promover uma arquitetura adequada àquele contexto? Foi o que Hassan Fathy buscou fazer. Não se trata de um “pastiche” pobre da arquitetura tradicional árabe, mas sim de um resgate de seus valores que ainda cabem no contexto atual.

O protagonista deste post inspirou-se na arquitetura tradicional de Núbia (Egito) quando decidiu tornar-se arquiteto. Deste modo, suas obras apresentam traços característicos da arquitetura tradicional árabe, como, por exemplo, os próprios materiais (tijolos, pedra, cerâmica) e o emprego de cúpulas que possuem uma técnica de construção que não faz uso de fôrmas, desenvolvida na região há séculos e que foi verdadeiramente resgatada por Fathy. As aberturas em forma de arcos, a geometrização e o uso dos famosos muxarabis também são traços da arquitetura tradicional árabe encontrados na obra de Fathy, bem como as casas fechadas para o exterior e abertas para o interior, com seus famosos jardins internos. A casa Fouad Reyad, um de seus projetos mais conhecidos, apresenta essas características.

Até a data da construção da casa (1967), Hassan Fathy utilizava predominantemente tijolos de adobe (tradicionalmente utilizados em boa parte do Sahel), mas quando o uso desses foi proibido pelo governo egípcio (por que diabos?), o arquiteto ingressou em uma fase em que usou largamente a pedra como material para suas estruturas. A casa Reyad marca o início dessa fase.

Trata-se, portanto, de uma casa muito adequada a seu contexto e com uma volumetria riquíssima, cuja fachada principal, voltada para uma avenida movimentada, é discreta e isola o interior da residência do tumulto do trânsito local. Há um jardim privado, elemento muito característico da arquitetura tradicional árabe, que fica nos fundos da residência e a liga a um oásis próximo. Esse elemento tradicional que é abertura da casa para dentro de si ganha um novo significado nos dias de hoje, quando a casa se volta para uma grande cidade grande como Gizé.

Vários dos elementos presentes na arquitetura de Fathy têm como função também o conforto térmico, como já foi citado. Deste modo, ao longo de toda a casa, além das janelas principais, há pequenas aberturas estrategicamente localizadas de modo a permitir tanto a circulação do ar como uma boa iluminação, além das próprias abóbadas cumprirem parcialmente a função de promover a circulação do ar fresco.

Algumas dessas aberturas são adornadas com muxarabis, que têm relação funcional com os brises, ao permitir a entrada de ventilação e luminosidade de forma controlada, ou mesmo com os cobogós (os quais já protagonizaram um post aqui), permitindo a visão da rua por quem está dentro mas mantendo a privacidade.

Outro elemento interessante da arquitetura de Hassan Fathy é o empego de mão-de-obra local basicamente manual, de modo a reviver com fidelidade as técnicas autóctones de construção. Por isso, notam-se imprecisões e imperfeições no acabamento, que na verdade são fundamentais para que se mantenha o caráter tradicional da arquitetura, atribuindo-lhe essa identidade em comum com a arquitetura ancestral.

O interior da casa traz, além de uma forte sensação de regionalismo e pertencimento, uma idéia de aconchego notada tanto no jardim interno como na sala de estar ampla, bem iluminada e com pé-direito alto. Por estar perfeitamente integrada ao contexto do forte tradicionalismo dos povos árabes, produz ainda uma sensação de atemporalidade, ao remeter, por suas formas e materiais, a construções antigas da região.

O Dr. Reyad, que encomendou a residência nos anos 60, pretendia utilizá-la somente como veraneio, mas acabou por morar na casa quando ela ficou pronta, o que forçou algumas alterações na hora da construção com relação ao que havia no projeto. Ainda assim, o conceito da obra de Fathy manteve-se intacto, em uma casa discreta mas que traduz com força a maioria dos elementos trabalhados pelo arquiteto durante sua carreira.

Pode-se dizer que o fato de a casa reproduzir a característica da arquitetura nativa de se fechar para o exterior e se abrir pra dentro, eventualmente bloqueia sua integração com o contexto, o que pode até ser verdade dependendo da escala analisada. Contudo, muito da arquitetura possui uma carga ideológica importante, e o conceito utilizado nesse caso destoa radicalmente daquele utilizado pela maioria das casas que se fecham com grandes muralhas, arames e alarmes, e é possível dizer, a meu ver, que o princípio utilizado por Hassan Fathy, de certo modo, justifica sua decisão de abrir a casa somente para seu interior. E numa escala mais ampla, a construção se integra ao contexto com primazia, no que tange à sua relação formal com a arquitetura ancestral local.

A obra dele é bem mais extensa, e vale a pena dar uma boa olhada em outros projetos, como Nova Gourna, toda uma vila projetada por Fathy em 1949. Escolhi a Casa Fouad Reyad por ser uma das mais representativas do trabalho do arquiteto. Acredito que o mais importante de seu trabalho é justamente o resgate dos valores que construíram a identidade arquitetônica de sua região de forma ao mesmo tempo sensível e racional.

Aliás, as estratégias de regulação climática na arquitetura tradicional dos povos das regiões mais quentes do mundo (árabes, persas, etc) são um assunto que dá um bocado de pano pra manga.

Via Arquitetonico

 

 

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